{"id":771,"date":"2018-07-13T14:34:31","date_gmt":"2018-07-13T17:34:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pontoinfinito.com.br\/MundoMaker\/?p=771"},"modified":"2018-07-13T14:34:31","modified_gmt":"2018-07-13T17:34:31","slug":"por-que-ensinar-a-cincia-da-dvida-nos-anos-iniciais-do-fundamental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/por-que-ensinar-a-cincia-da-dvida-nos-anos-iniciais-do-fundamental\/","title":{"rendered":"Por que ensinar a \u201cci\u00eancia da d\u00favida\u201d nos anos iniciais do fundamental"},"content":{"rendered":"<p>Nas aulas de Ci\u00eancias nos anos iniciais do Ensino Fundamental, em geral, a ci\u00eancia \u00e9 apresentada \u00e0s crian\u00e7as como um tipo particular de discurso, que se caracteriza pela neutralidade e se baseia em uma atitude de certeza. As crian\u00e7as s\u00e3o avaliadas por sua participa\u00e7\u00e3o ou capacidade de responder corretamente a um question\u00e1rio. Elas est\u00e3o de tal modo presas \u00e0 \u201cresposta certa\u201d que, quando s\u00e3o questionadas sobre algum assunto, procuram a reposta no rosto da professora, modificando as suas ideias a partir de um sinal n\u00e3o verbal. O saber que tem sido reproduzido \u00e9 um saber que a crian\u00e7a precisa devolver com uma resposta certa. As crian\u00e7as, raramente, s\u00e3o convidadas a experimentar, argumentar ou justificar suas pr\u00f3prias ideias. Assim, a escola distorce a linguagem cient\u00edfica ao apresent\u00e1-la a partir de tarefas sem que a crian\u00e7a se conscientize de suas singularidades, dificuldades e potencialidades.<\/p>\n<p>Em sua pesquisa, Gallas (1995) indica que a ci\u00eancia n\u00e3o nasce da objetiva\u00e7\u00e3o e distanciamento do mundo, mas de um problema em que as crian\u00e7as estejam engajadas. Para Driver e Oldham (1986) \u00e9 fundamental que o ensino de ci\u00eancias proporcione \u00e0s crian\u00e7as a oportunidade de realiza\u00e7\u00e3o de experimentos, a elabora\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses sobre um problema, a an\u00e1lise de resultados e a explicita\u00e7\u00e3o e argumenta\u00e7\u00e3o de ideias. Recorrendo \u00e0 did\u00e1tica do ensino de ci\u00eancias, o objetivo desse conhecimento nos primeiros anos de escolariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o ensino de conceitos, de conhecimentos prontos e acabados. O ensino de ci\u00eancias nos anos iniciais do ensino fundamental remete justamente ao p\u00f3lo oposto, ou seja, \u00e0 pergunta como ponto de partida para o aprendizado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a ci\u00eancia que se deve ensinar \u00e9 a ci\u00eancia da d\u00favida. \u00c9 a ci\u00eancia do exerc\u00edcio do porqu\u00ea, que instiga o imaginar e a discuss\u00e3o dos fen\u00f4menos do mundo para que as crian\u00e7as iniciem a apropria\u00e7\u00e3o de um discurso cient\u00edfico. A ci\u00eancia a ser ensinada \u00e9 aquela que valoriza o pensamento das crian\u00e7as e que n\u00e3o abre m\u00e3o da voz delas. \u00c9 tamb\u00e9m a ci\u00eancia da aventura da experimenta\u00e7\u00e3o e do l\u00fadico, aquela que celebra a atitude do n\u00e3o saber e querer descobrir. Nessa perspectiva, pensar o ensino de ci\u00eancias nos primeiros anos do ensino fundamental \u00e9 levar \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o de um discurso cient\u00edfico inserindo-o numa perspectiva te\u00f3rica que articula o fazer, falar, ler e escrever.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio da atividade experimental como um caminho genu\u00edno para a aprendizagem de ci\u00eancias nos primeiros anos de escolariza\u00e7\u00e3o tem tido cada vez maior influ\u00eancia no discurso pedag\u00f3gico e nas tentativas de compor projetos e pr\u00e1ticas de ensino inovadoras na escola. Essa tend\u00eancia \u00e9 desafiada pelas prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es materiais da escola e, sobretudo, pela dificuldade dos professores em deixar que as crian\u00e7as sejam protagonistas de sua aprendizagem.<\/p>\n<p>Nas atividades experimentais, a a\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as sobre os objetos n\u00e3o se limita \u00e0 simples manipula\u00e7\u00e3o e\/ou observa\u00e7\u00e3o. Nessas atividades, o formato aberto das discuss\u00f5es permite a efetiva participa\u00e7\u00e3o de todas as crian\u00e7as, pois a ess\u00eancia do trabalho est\u00e1 em ler o mundo atrav\u00e9s de situa\u00e7\u00f5es reais e significativas de aprendizagem. Assim, a experi\u00eancia de ensinar ci\u00eancias por meio de atividades experimentais constitui uma pr\u00e1tica dial\u00f3gica que proporciona espa\u00e7o e tempo para a sistematiza\u00e7\u00e3o coletiva do conhecimento e da tomada de consci\u00eancia do que foi feito (Carvalho, 1998).<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0 linguagem oral nas aulas de ci\u00eancias o objetivo n\u00e3o \u00e9 ensinar a crian\u00e7a a \u201cfalar corretamente\u201d sobre os conceitos cient\u00edficos, mas pensar junto a seu grupo sobre um problema e construir argumentos para se apropriar de formas de falar pertencentes ao mundo da ci\u00eancia. Vygotsky (1984) aponta para a verbaliza\u00e7\u00e3o como um &#8220;instrumento cognitivo&#8221; para o desenvolvimento e express\u00e3o da compreens\u00e3o. Ent\u00e3o, quando o aluno argumenta sobre um conceito cient\u00edfico, ele est\u00e1 processando cognitivamente toda a sua compreens\u00e3o da atividade.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de ensinar ci\u00eancias em uma perspectiva que valorize o questionamento e a d\u00favida mexe com a cultura de ser professora. Isso implica, necessariamente, em operar uma quebra na rotina da aula e, portanto, provocar uma esp\u00e9cie de desordem sobre a ordem. O educador, como interlocutor e organizador no ato pedag\u00f3gico, pode oferecer \u00e0 crian\u00e7a a possibilidade de experimentar um desequil\u00edbrio cognitivo, evidenciando a escola como um lugar de aprendizagem da linguagem cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Para saber mais:<\/p>\n<p>CARVALHO, Anna Maria Pessoa de. Ci\u00eancias no ensino fundamental: o conhecimento f\u00edsico. S\u00e3o Paulo: Scipione, 1998.<\/p>\n<p>DRIVER, R. Oldham, V. A constructivist approach to curriculum development in science. Studies in Science Education, v. 13, p. 105- 122, 1986.<\/p>\n<p>GALLAS, Karen. Talking their way into science: hearing children\u2019s questions and theories, responding whith curricula. New York, Teachers College Press, 1995.<\/p>\n<p>GOUV\u00caA, Guaracira. A Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica para Crian\u00e7as: o caso da Ci\u00eancia Hoje das Crian\u00e7as. Tese de doutorado do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o, Gest\u00e3o e Difus\u00e3o em Bioci\u00eancias da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2000.<\/p>\n<p>VYGOTSKY, L. Pensamento e linguagem. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1984.<\/p>\n<p>* Fonte: Nova Escola. Sheila Alves de Almeida \u00e9 doutora em ensino de Ci\u00eancias pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u00c9 tamb\u00e9m professora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e por 15 anos atuou como professora de ensino fundamental em Belo Horizonte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas aulas de Ci\u00eancias nos anos iniciais do Ensino Fundamental, em geral, a ci\u00eancia \u00e9 apresentada \u00e0s crian\u00e7as como um tipo particular de discurso, que se caracteriza pela neutralidade e se baseia em uma atitude de certeza. As crian\u00e7as s\u00e3o avaliadas por sua participa\u00e7\u00e3o ou capacidade de responder corretamente a um question\u00e1rio. 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