{"id":5178,"date":"2019-07-31T18:10:51","date_gmt":"2019-07-31T21:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mundomaker.cc\/?p=5178"},"modified":"2019-07-31T18:10:51","modified_gmt":"2019-07-31T21:10:51","slug":"o-cerebro-precisa-se-emocionar-para-aprender-francisco-mora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/o-cerebro-precisa-se-emocionar-para-aprender-francisco-mora\/","title":{"rendered":"O c\u00e9rebro precisa se \u2018emocionar\u2019 para aprender \u2013 Francisco Mora"},"content":{"rendered":"\n<strong>Especialista em Neuroeduca\u00e7\u00e3o aposta na mudan\u00e7a de metodologias, mas pede cautela na aplica\u00e7\u00e3o da neuroci\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\n<em><strong>\u201c\u00c9 preciso acabar com o formato das aulas de 50 minutos\u201d<\/strong><\/em>\n\u2013 Francisco Mora\n\nA neuroeduca\u00e7\u00e3o, disciplina que estuda como o c\u00e9rebro aprende, est\u00e1 dinamitando as metodologias tradicionais de ensino. Sua principal contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 que o c\u00e9rebro precisa se emocionar para aprender e, de alguns anos para c\u00e1, n\u00e3o existe ideia inovadora considerada v\u00e1lida que n\u00e3o contenha esse princ\u00edpio. No entanto, uma das maiores refer\u00eancias na Espanha nesse campo, o doutor em Medicina Francisco Mora, recomenda cautela e adverte que na neuroeduca\u00e7\u00e3o ainda h\u00e1 mais perguntas do que respostas.\n\nMora, autor do livro&nbsp;<em>Neuroeducaci\u00f3n<\/em>. Solo se puede aprender aquello que se ama (Neuroeduca\u00e7\u00e3o. S\u00f3 se pode aprender aquilo que se ama), que j\u00e1 atingiu a marca de onze edi\u00e7\u00f5es desde 2013, tamb\u00e9m \u00e9 doutor em neuroci\u00eancia pela Universidade de Oxford. Come\u00e7ou a se interessar pelo assunto em 2010, quando participou do primeiro Congresso Mundial de Neuroeduca\u00e7\u00e3o realizado no Peru.\n\nA entrevista \u00e9 de&nbsp;<em>Ana Torres Men\u00e1rguez<\/em>, publicada por&nbsp;<em>El Pa\u00eds, 21.2.2017<\/em>.\n\n<em><strong>Mora<\/strong><\/em>&nbsp;argumenta que a educa\u00e7\u00e3o pode ser transformada para tornar a aprendizagem mais eficaz, por exemplo, reduzindo o tempo das aulas para menos de 50 minutos para que os alunos sejam capazes de manter a aten\u00e7\u00e3o. O professor de Fisiologia Humana da Universidade Complutense alerta que na educa\u00e7\u00e3o ainda s\u00e3o consideradas v\u00e1lidas concep\u00e7\u00f5es equivocadas sobre o c\u00e9rebro, o que ele chama de neuromitos. Al\u00e9m disso, Mora est\u00e1 ligado ao Departamento de Fisiologia Molecular e Biof\u00edsica da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.\n<h4>Eis a entrevista:<\/h4>\n<strong>Por que \u00e9 importante levar em conta as descobertas da neuroeduca\u00e7\u00e3o para transformar a forma de aprender?<\/strong>\n\nNo contexto internacional h\u00e1 muita fome para ancorar em algo s\u00f3lido o que at\u00e9 agora s\u00e3o apenas opini\u00f5es, e esse interesse se d\u00e1 especialmente entre os professores. O que a neuroeduca\u00e7\u00e3o faz \u00e9 transferir a informa\u00e7\u00e3o de como o c\u00e9rebro funciona com a melhoria dos processos de aprendizagem. Por exemplo, saber quais est\u00edmulos despertam a aten\u00e7\u00e3o, que em seguida d\u00e1 lugar \u00e0 emo\u00e7\u00e3o, pois sem esses dois fatores nenhuma aprendizagem ocorre. O c\u00e9rebro humano n\u00e3o mudou nos \u00faltimos 15.000 anos; poder\u00edamos ter uma crian\u00e7a do paleol\u00edtico inferior numa escola e o professor n\u00e3o perceber. A educa\u00e7\u00e3o tampouco mudou nos \u00faltimos 200 anos e j\u00e1 temos algumas evid\u00eancias de que \u00e9 urgente fazer essa transforma\u00e7\u00e3o. Devemos redesenhar a forma de ensinar.\n\n<strong>Quais s\u00e3o as certezas que j\u00e1 podem ser aplicadas?<\/strong>\n\nUma delas \u00e9 a idade em que se deve aprender a ler. Hoje sabemos que os circuitos neurais que codificam para transformar de grafema a fonema, o que voc\u00ea l\u00ea e o que voc\u00ea diz, n\u00e3o fazem conex\u00f5es sin\u00e1pticas antes dos seis anos. Se os circuitos que permitir\u00e3o aprender a ler n\u00e3o est\u00e3o formados, se poder\u00e1 ensinar com um chicote, com sacrif\u00edcio, sofrimento, mas n\u00e3o de forma natural. Se voc\u00ea come\u00e7a com seis, em pouqu\u00edssimo tempo aprender\u00e1, enquanto que se come\u00e7ar com quatro talvez consiga, mas com enorme sofrimento. Tudo o que \u00e9 doloroso tendemos a rejeitar, n\u00e3o queremos, enquanto aquilo que \u00e9 prazeroso tentamos repetir.\n\n<strong>Qual \u00e9 a principal mudan\u00e7a que o sistema de ensino atual deve sofrer?<\/strong>\n\n<em>Hoje estamos come\u00e7ando a saber que ningu\u00e9m pode aprender qualquer coisa se n\u00e3o estiver motivado. \u00c9 necess\u00e1rio despertar a curiosidade, que \u00e9 o mecanismo cerebral capaz de detectar a diferen\u00e7a na monotonia di\u00e1ria<\/em>. Presta-se aten\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que se destaca. Estudos recentes mostram que a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos compartilha substratos neuronais com a busca de \u00e1gua, alimentos e sexo.&nbsp;<em>O prazeroso. Por isso \u00e9 preciso acender uma emo\u00e7\u00e3o no aluno, que \u00e9 a base mais importante sobre a qual se apoiam os processos de aprendizagem e mem\u00f3ria. As emo\u00e7\u00f5es servem para armazenar e recordar de uma forma mais eficaz.<\/em>\n\n<strong>Quais estrat\u00e9gias o professor pode usar para despertar essa curiosidade?<\/strong>\n\nEle deve come\u00e7ar a aula com algum elemento provocador, uma frase ou uma imagem que seja chocante. Romper o esquema e sair da monotonia. Sabemos que para um aluno prestar aten\u00e7\u00e3o na aula n\u00e3o basta exigir que ele o fa\u00e7a. A aten\u00e7\u00e3o deve ser evocada com mecanismos que a psicologia e a neuroci\u00eancia est\u00e3o come\u00e7ando a desvendar. M\u00e9todos associados \u00e0 recompensa, e n\u00e3o \u00e0 puni\u00e7\u00e3o. Desde que somos mam\u00edferos, h\u00e1 mais de 200 milh\u00f5es de anos, a emo\u00e7\u00e3o \u00e9 o que nos move. Os elementos desconhecidos, que nos surpreendem, s\u00e3o aqueles que abrem a janela da aten\u00e7\u00e3o, imprescind\u00edvel para a aprendizagem.\n\n<strong>O senhor alertou em v\u00e1rias ocasi\u00f5es para a necessidade de ser cauteloso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s evid\u00eancias da neuroeduca\u00e7\u00e3o. Em que ponto o senhor est\u00e1?<\/strong>\n\nA neuroeduca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 como o m\u00e9todo Montessori, n\u00e3o existe um dec\u00e1logo que possa ser aplicado. Ainda n\u00e3o \u00e9 uma disciplina acad\u00eamica com um corpo ordenado de conhecimentos. Precisamos de tempo para continuar pesquisando porque o que conhecemos hoje em profundidade sobre o c\u00e9rebro n\u00e3o \u00e9 totalmente aplic\u00e1vel ao dia a dia em sala de aula. Muitos cientistas dizem que \u00e9 muito cedo para levar a neuroci\u00eancia \u00e0s escolas, primeiro porque os professores n\u00e3o entendem do que voc\u00ea est\u00e1 lhes falando e segundo porque n\u00e3o h\u00e1 literatura cient\u00edfica suficiente para afirmar em quais idades \u00e9 melhor aprender quais conte\u00fados e como. H\u00e1 flashes de luz.\n\n<strong>O senhor poderia contar alguns dos mais recentes?<\/strong>\n\nEstamos percebendo, por exemplo, que a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser mantida durante 50 minutos, por isso \u00e9 preciso romper o formato atual das aulas. Mais vale assistir 50 aulas de 10 minutos do que 10 aulas de 50 minutos. Na pr\u00e1tica, uma vez que esses formatos n\u00e3o ser\u00e3o alterados em breve, os professores devem quebrar a cada 15 minutos com um elemento disruptor: uma anedota sobre um pesquisador, uma pergunta, um v\u00eddeo que levante um assunto diferente\u2026 H\u00e1 algumas semanas, a Universidade de Harvard me encarregou de criar um MOOC (curso online aberto e massivo, na sigla em ingl\u00eas) sobre Neuroci\u00eancia. Tenho de concentrar tudo em 10 minutos para que os alunos absorvam 100% do conte\u00fado. Nessa linha ir\u00e3o as coisas no futuro.\n\n<strong>Em seu livro Neuroeduca\u00e7\u00e3o: S\u00f3 se pode aprender aquilo que se ama, o senhor adverte sobre o perigo dos chamados neuromitos. Quais s\u00e3o os mais difundidos?<\/strong>\n\nH\u00e1 muita confus\u00e3o e erros de interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos, o que chamamos de neuromitos. Um dos mais generalizados \u00e9 que utilizamos apenas 10% da capacidade do c\u00e9rebro. Ainda se vendem programas de computador baseados nisso e as pessoas acreditam que poder\u00e3o aumentar suas capacidades e intelig\u00eancia para al\u00e9m de suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es.&nbsp;<em>Nada pode substituir o lento e dif\u00edcil processo do trabalho e da disciplina quando se trata de aumentar as capacidades intelectuais. Al\u00e9m disso, o c\u00e9rebro utiliza todos os seus recursos a cada vez que se depara com a resolu\u00e7\u00e3o de problemas, com processos de aprendizagem ou de mem\u00f3ria.<\/em>\n\nOutro neuromito \u00e9 o que fala do c\u00e9rebro direito e esquerdo e que as crian\u00e7as deveriam ser classificadas em fun\u00e7\u00e3o de qual dos dois c\u00e9rebros \u00e9 mais desenvolvido nelas. Ao analisar as fun\u00e7\u00f5es de ambos os hemisf\u00e9rios em laborat\u00f3rio, constatou-se que o hemisf\u00e9rio direito \u00e9 o criador e o esquerdo \u00e9 o anal\u00edtico \u2013 o da linguagem e da matem\u00e1tica. Extrapolou-se a ideia de que h\u00e1 crian\u00e7as com predomin\u00e2ncia de c\u00e9rebros direitos ou esquerdos e criou-se o equ\u00edvoco, o mito, de que h\u00e1 dois c\u00e9rebros que trabalham de forma independente, e que se tal separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o for feita na hora de ensinar as crian\u00e7as, isso as prejudica. Essa dicotomia n\u00e3o existe, a transfer\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es entre os dois hemisf\u00e9rios \u00e9 constante. Se temos talentos mais pr\u00f3ximos da matem\u00e1tica ou do desenho, isso n\u00e3o se refere aos hemisf\u00e9rios, mas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o conjunta de ambos.\n\n<strong>A neuroeduca\u00e7\u00e3o est\u00e1 influindo em outros aspectos do ensino?<\/strong>\n\nH\u00e1 um movimento muito interessante que \u00e9 o da neuroarquitetura, que visa \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de escolas com formas inovadoras que gerem bem-estar enquanto se aprende. A Academia de Neuroci\u00eancias para o Estudo da Arquitetura, nos Estados Unidos, reuniu arquitetos e neurocientistas para conceber novos modos de construir. Novos edif\u00edcios nos quais, embora seja importante seu desenho arquitet\u00f4nico, a luz seja contemplada, assim como a temperatura e o ru\u00eddo, que tanto afetam o rendimento mental.\n\n*Originalmente publicado em&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/02\/17\/economia\/1487331225_284546.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-slimstat=\"5\"><em>El Pa\u00eds Brasil<\/em><\/a>.\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialista em Neuroeduca\u00e7\u00e3o aposta na mudan\u00e7a de metodologias, mas pede cautela na aplica\u00e7\u00e3o da neuroci\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o \u201c\u00c9 preciso acabar com o formato das aulas de 50 minutos\u201d \u2013 Francisco Mora A neuroeduca\u00e7\u00e3o, disciplina que estuda como o c\u00e9rebro aprende, est\u00e1 dinamitando as metodologias tradicionais de ensino. 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