{"id":12569,"date":"2019-03-12T11:31:59","date_gmt":"2019-03-12T14:31:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mundomaker.cc\/?p=2314"},"modified":"2019-03-12T11:31:59","modified_gmt":"2019-03-12T14:31:59","slug":"edgar-morin-e-preciso-ensinar-a-compreensao-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/edgar-morin-e-preciso-ensinar-a-compreensao-humana\/","title":{"rendered":"Edgar Morin: \u201c\u00c9 preciso ensinar a compreens\u00e3o humana\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria originalmente publicada em <a href=\"https:\/\/www.fronteiras.com\/entrevistas\/edgar-morin-compreensao-humana?fbclid=IwAR3ptkPbWwo6UDAq1CY9TChUZCATEuTD9SsCHKzM6w5fv7ej6q0u2m4OaCE\"><strong>Fronteira do Pensamento<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Nos acostumamos a acreditar que pensamento e pr\u00e1tica s\u00e3o compartimentos distintos da vida. Quem pensa o mundo n\u00e3o faz o mundo e vice-versa.<\/p>\n<p>Mas, houve um tempo em que os s\u00e1bios, eventualmente chamados de cientistas ou artistas, circulavam por diversos campos da cultura. Matem\u00e1tica, f\u00edsica, arquitetura, pintura, escultura eram mat\u00e9ria-prima do pensamento e da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o industrial veio derrubar a ideia do saber renascentista e, desde o s\u00e9culo 19, a especializa\u00e7\u00e3o foi ganhando for\u00e7a. Por\u00e9m, sempre haver\u00e1 quem nos lembre que a vida \u00e9 produto de um contexto, de um ac\u00famulo de viv\u00eancias e ideias.<\/p>\n<p>Pense em um fil\u00f3sofo que pegou em armas contra o nazismo para depois empunhar as ferramentas da ret\u00f3rica contra o stalinismo, que reconhece a import\u00e2ncia dos saberes dos povos originais sem abrir m\u00e3o de pensar e repensar a educa\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p>Com mais de 90 anos, o franc\u00eas Edgar Morin, nascido e criado Edgar Nahoum no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, \u00e9 um dos mais respeitados pensadores do nosso tempo. Com uma gigantesca produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, pedag\u00f3gica e filos\u00f3fica. Em tempos de radicalismos, Morin \u00e9 herdeiro do melhor do humanismo franc\u00eas.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\"><\/div>\n<p>Em entrevista ao programa Mil\u00eanio, Edgar Morin fala sobre o extremismo e o significado da educa\u00e7\u00e3o na contemporaneidade. Leia abaixo:<\/p>\n<p><strong>Gostaria de come\u00e7ar com uma quest\u00e3o generalista. Soci\u00f3logo, antrop\u00f3logo, fil\u00f3sofo, professor, escritor, e at\u00e9, \u00e0s vezes, jornalista. Qual a melhor defini\u00e7\u00e3o de Edgar Morin e por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin<\/strong>: A melhor defini\u00e7\u00e3o seria n\u00e3o ter defini\u00e7\u00e3o. De se bastar. A palavra \u201cfil\u00f3sofo\u201d talvez me conviesse bem, mas hoje a filosofia, no geral, se fechou em si mesma e a minha \u00e9 uma filosofia que observa o mundo, os acontecimentos, etc. Sou muito marginal, quer dizer, sou marginal em todas essas \u00e1reas. Ent\u00e3o, sou aquele que querem que eu seja.<\/em><\/p>\n<p><strong>Seria mais correto falar em um pensador do estilo renascentista, algu\u00e9m que mistura um pouco essas hist\u00f3rias todas?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong> N\u00e3o exatamente que mistura, mas que tenta fazer a liga\u00e7\u00e3o, que tenta ter uma cultura feita de conhecimentos que hoje est\u00e3o dispersos. Mas, \u00e9 verdade que o Renascentismo foi admir\u00e1vel pelos homens que tinham um conhecimento, n\u00e3o digo enciclop\u00e9dico, mas aberto a v\u00e1rias \u00e1reas. Se quiserem, acho que as perguntas fundamentais de cada um a si mesmo, \u201cquem somos n\u00f3s, para onde vamos e de onde viemos?\u201d, s\u00e3o quest\u00f5es fundamentais, precisamos respond\u00ea-las e n\u00e3o afast\u00e1-las.<\/em><\/p>\n<p><em>A trag\u00e9dia do nosso sistema de conhecimento atual \u00e9 que ele compartimenta tanto os conhecimentos que a gente n\u00e3o consegue se fazer essas perguntas. Se perguntarmos \u201cO que \u00e9 o ser humano?\u201d, n\u00e3o teremos respostas, porque as diferentes respostas est\u00e3o dispersas. E, no fundo, \u00e9 isso que chamo de pensamento complexo, um pensamento que re\u00fane conhecimentos separados.<\/em><\/p>\n<p><strong>E esse pensamento complexo do qual o senhor fala estaria em oposi\u00e7\u00e3o a um pensamento simples. Como se d\u00e1 esse duelo hoje, num setor que o senhor conhece bem, o ensino?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong> O que chamo de desafio da complexidade \u00e9 que estamos em um mundo onde encontramos problemas t\u00e3o dif\u00edceis e separados, e uni-los. Como fazer isso? Eu fiz um trabalho ao longo de muitos anos para, de certa forma, elaborar um m\u00e9todo que possibilite a uni\u00e3o desses saberes, porque n\u00e3o podemos simplesmente sobrepor, \u00e9 preciso articul\u00e1-los.<\/em><\/p>\n<p><em>Acredito que, para uma melhor compreens\u00e3o da realidade, para entender quem somos, que voc\u00ea \u00e9 um ser complexo, que eu sou um ser complexo, n\u00e3o podemos estar reduzidos a um \u00fanico aspecto da personalidade, para saber que a sociedade \u00e9 complexa, para entender a globaliza\u00e7\u00e3o. Acredito que \u00e9 sim necess\u00e1rio um pensamento assim, sen\u00e3o temos um pensamento mutilado, o que \u00e9 muito grave, porque um pensamento mutilado leva a decis\u00f5es erradas ou ilus\u00f3rias.<\/em><\/p>\n<div class=\"td-g-rec td-g-rec-id-custom_ad_3 \"><\/div>\n<p><strong>E como traduzir isso para os alunos, para as novas gera\u00e7\u00f5es, por meio do ensino? Como \u00e9 poss\u00edvel encarar essa tarefa t\u00e3o dif\u00edcil para os educadores, para aqueles que estudam a educa\u00e7\u00e3o e querem passar adiante esse pensamento mais complexo, com uma vis\u00e3o um pouco mais ampla do mundo do que aquela homogeneizada, simplista, com certezas bastante fr\u00e1geis?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong> Eu proponho, no ensino, a introdu\u00e7\u00e3o de temas fundamentais que ainda n\u00e3o existem. Quer dizer, proponho introduzir o tema do conhecimento, pois damos conhecimento sem nunca saber o que \u00e9 o conhecimento. Mas, como todo conhecimento \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o seguida de uma reconstru\u00e7\u00e3o, sempre existe o risco do erro, o risco de alucina\u00e7\u00f5es, sempre.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu proponho o m\u00e9todo de incluir esses temas, de incluir o tema da compreens\u00e3o humana. \u00c9 preciso ensinar a compreens\u00e3o humana, porque \u00e9 um mal do qual todos sofrem em graus diferentes. Come\u00e7a na fam\u00edlia, onde filhos n\u00e3o s\u00e3o compreendidos pelos pais e os pais n\u00e3o entendem seus filhos. Pode continuar na escola, com os professores e os colegas. Continua na vida do trabalho, no amor e acho que temos que ensinar tamb\u00e9m a enfrentar as incertezas. Porque em todo destino humano h\u00e1 uma incerteza desde o nascimento.<\/em><\/p>\n<p><em>A \u00fanica certeza \u00e9 a morte e n\u00e3o sabemos quando. Mas, \u00e9 claro que estamos em meio, n\u00e3o apenas das incertezas que chamaria de normais, de sa\u00fade, casamento, trabalho, mas tamb\u00e9m uma incerteza hist\u00f3rica impressionante.<\/em><\/p>\n<p><em>Antes, a gente achava que existia um progresso certo e agora o futuro \u00e9 uma ang\u00fastia. Por isso, suportar, enfrentar a incerteza \u00e9 n\u00e3o naufragar na ang\u00fastia, saber que \u00e9 preciso, de certa forma, participar com o outro, de algo em comum, porque a \u00fanica reposta aos que t\u00eam a ang\u00fastia de morrer \u00e9 o amor e a vida em comum.<\/em><\/p>\n<p><strong>Isso nos traz a um dos muitos caminhos que temos para nos conhecer e conhecer o outro, que \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E o senhor, desde muito cedo, teve uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito importante. Na Resist\u00eancia e, depois, com suas rela\u00e7\u00f5es no Partido Comunista. Mas, muito cedo tamb\u00e9m, o senhor aprendeu a fazer essa autocr\u00edtica e n\u00e3o hesitou em criticar duramente o Partido Comunista e a ascens\u00e3o da URSS Stalinista, depois da China mao\u00edsta. Mais recentemente, a globaliza\u00e7\u00e3o. Politicamente, hoje, qual a luta que o senhor considera que vale a pena lutar? Sabemos que o mundo vive uma crise profunda de representa\u00e7\u00e3o nas democracias, nos partidos, nos sindicatos. Como fazer essa luta pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong><\/em> <em>Antes de mais nada, \u00e9 preciso entender bem que estamos amea\u00e7ados, cada vez mais, por duas barb\u00e1ries. A primeira barb\u00e1rie a gente conhece, vem desde os prim\u00f3rdios da hist\u00f3ria, que \u00e9 a crueldade, a domina\u00e7\u00e3o, a subservi\u00eancia, a tortura, tudo isso.<\/em><\/p>\n<p><em>A segunda barb\u00e1rie, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma barb\u00e1rie fria e gelada, a do c\u00e1lculo econ\u00f4mico. Porque quando existe um pensamento fundado exclusivamente em contas, n\u00e3o se v\u00ea mais os seres humanos. O que se v\u00ea s\u00e3o estat\u00edsticas, produtos burros. No fundo, o c\u00e1lculo, que \u00e9 \u00fatil, mas como instrumento, se torna um meio de conhecimento, mas de falso conhecimento, que mascara a realidade humana.<\/em><\/p>\n<p><em>No fundo, assim que entra o c\u00e1lculo, os humanos s\u00e3o tratados como objetos. E hoje, com o dom\u00ednio justamente do poder e do dinheiro, com o dom\u00ednio do mundo burocr\u00e1tico, tudo isso, \u00e9 o reino da barb\u00e1rie gelada. Se preferir, \u00e9 preciso repensar a pol\u00edtica e n\u00f3s estamos na pr\u00e9-hist\u00f3ria desse momento. \u00c9 preciso saber se as for\u00e7as negativas, a corrente negativa vai ser mais forte do que as for\u00e7as positivas que tentam se levantar hoje no mundo e s\u00e3o ainda muito dispersas.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como fazer com que todas essas ferramentas, que existem e foram desenvolvidas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, possam ser utilizadas de uma forma, digamos, mais positiva?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong><\/em>: <em>Antes de mais nada, \u00e9 verdade que informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 conhecimento. Conhecimento \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, estamos imersos em informa\u00e7\u00f5es e como elas se sucedem dia a dia, de certa forma, n\u00e3o temos como ter consci\u00eancia disso. De outra parte, os conhecimentos, como eu disse, est\u00e3o dispersos. \u00c9 preciso uni-los, mas falta esse pensamento complexo.<\/em><\/p>\n<p><em>Dito isso, quando pensamos sobre a internet, a internet virou uma for\u00e7a incr\u00edvel, eu diria que em todas as dire\u00e7\u00f5es, tanto para o lado negativo quando para o positivo.<\/em><\/p>\n<p><em>O que h\u00e1 de extraordin\u00e1rio na internet e em todos esses meios que voc\u00ea citou \u00e9 que, hoje, um Estado pode controlar um indiv\u00edduo em todos os seus gestos e atos, mesmo quando ele<\/em> <em>est\u00e1 na rua lendo um jornal. Podemos ser controlados. Mas, ao mesmo tempo, atrav\u00e9s da internet, um ou dois indiv\u00edduos razoavelmente talentosos em matem\u00e1tica podem decifrar os segredos do Pent\u00e1gono, segredos diplom\u00e1ticos dos mais importantes do Estado mais forte do mundo.<\/em><\/p>\n<p><strong>O senhor acha que neste mundo, com tantas coisas que regridem, um pa\u00eds como o Brasil que o senhor conhece tanto tem algo a ensinar aos outros notadamente quando se v\u00ea essa sociedade mesti\u00e7a, essa mistura que existe de verdade. Mesmo que tenhamos os nossos problemas com o racismo, nossos problemas de exclus\u00e3o e tudo isso. Mas, o senhor acha que essa sociedade brasileira, com todos esses problemas, tem algo a ensinar?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong><\/em> <em>Apesar dos limites, digamos, do car\u00e1ter de segrega\u00e7\u00e3o social, \u00e9 uma sociedade indiscutivelmente mesti\u00e7a, que conseguiu integrar contribui\u00e7\u00f5es vindas da \u00c1frica. Nunca em outro pa\u00eds a contribui\u00e7\u00e3o africana foi t\u00e3o intensamente integrada nos costumes, nem que seja na gastronomia, nas dan\u00e7as, nos cantos.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 um pa\u00eds muito interessante tamb\u00e9m onde, no Sul, que tem muitos imigrantes alem\u00e3es e italianos e o Nordeste, que \u00e9 muito diferente com sua popula\u00e7\u00e3o, os caboclos\u2026 Apesar dessa grande diversidade, \u00e9 um pa\u00eds que nunca quis se separar. Vejam a It\u00e1lia, a It\u00e1lia do Norte quer se separar da do Sul, veja a Inglaterra, a Esc\u00f3cia quer deixar o Reino Unido.<\/em><\/p>\n<p><em>No Brasil, mesmo com toda essa extraordin\u00e1ria heterogeneidade, existe uma cultura comum que mant\u00e9m a unidade. Ou seja, pra mim, o Brasil \u00e9 um grande estimulante. Um estimulante intelectual, mas tamb\u00e9m humano, pois tem um calor humano, um sentimento de familiaridade, que tamb\u00e9m perdemos na Fran\u00e7a e encontramos, muito vivo, no Brasil.<\/em><\/p>\n<div class=\"td-g-rec td-g-rec-id-custom_ad_3 \"><\/div>\n<p><strong>Eu j\u00e1 o vi e li dizendo que o monote\u00edsmo era o flagelo da humanidade. Queria saber se o senhor mant\u00e9m essa posi\u00e7\u00e3o hoje, frente ao que vemos no Oriente M\u00e9dio e nas lutas nacionalistas que misturam a religi\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia nacional.<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong> A f\u00f3rmula \u00e9 parcialmente verdadeira. Por qu\u00ea? Porque h\u00e1 outro aspecto muito presente no Cristianismo, sobretudo no Cristianismo de car\u00e1ter evang\u00e9lico, e tamb\u00e9m no Isl\u00e3, onde tamb\u00e9m h\u00e1 como princ\u00edpio um Deus magn\u00e2nimo e misericordioso. Existe um universalismo, porque o Cristianismo e o Isl\u00e3 se dirigem a todos os homens, a todos os seres humanos, n\u00e3o importa a ra\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando vemos a hist\u00f3ria do Cristianismo, h\u00e1 uma renova\u00e7\u00e3o dessa fonte de fraternidade e de evangelismo. Mas, quando olhamos a mesma hist\u00f3ria do Cristianismo, tamb\u00e9m vemos guerras religiosas, a Inquisi\u00e7\u00e3o, as persegui\u00e7\u00f5es, as fogueiras, as cruzadas e tudo isso. E quando olhamos para a hist\u00f3ria do Isl\u00e3 tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p><em>Dito isso, o que \u00e9 o monote\u00edsmo? \u00c9 o que v\u00ea a unidade no mundo. O que \u00e9 o polite\u00edsmo? \u00c9 o que v\u00ea a diversidade no mundo, que v\u00ea, como os antigos gregos, mas tamb\u00e9m no Candombl\u00e9, voc\u00eas t\u00eam Iemanj\u00e1, deusa das \u00e1guas, t\u00eam os outros, d\u00e1 pra dizer que s\u00e3o complementares. Uns veem a diversidade e outros a unidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, o polite\u00edsmo sempre foi mais tolerante do que o monote\u00edsmo, sempre foi menos dogm\u00e1tico. E, se hoje, o Hindu\u00edsmo fica agressivo contra o Isl\u00e3 \u00e9 que ele pr\u00f3prio vive uma luta entre duas religi\u00f5es, mas, em princ\u00edpio, as religi\u00f5es polite\u00edstas s\u00e3o mais\u2026 Mas, como estou fora dessas religi\u00f5es, apenas constato.<\/em><\/p>\n<p><em>Acredito que a virtude dos polite\u00edstas seja a de respeitar tamb\u00e9m a natureza. Quando se tem a Pacha Mama, da tradi\u00e7\u00e3o andina, temos o amor da m\u00e3e terra. O Cristianismo separou, como ali\u00e1s o Isl\u00e3, os dois tendo a mesma fonte, a B\u00edblia. Dizem que Deus criou o homem \u00e0 sua imagem, diferente da dos animais. Paulo disse que os humanos podem ressuscitar, mas os animais n\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Criamos a dissocia\u00e7\u00e3o com a natureza, acentuada pela civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, dizendo que, atrav\u00e9s da ci\u00eancia e da tecnologia podemos dominar e controlar a natureza. Mas, \u00e9 preciso reencontrar o sentido da natureza de uma forma n\u00e3o mais polite\u00edsta, mas humana, quer dizer, sentir essa vida, esse sentimento que expressava Spinoza, que a criatividade e a divindade est\u00e3o na natureza.<\/em><\/p>\n<p><strong>Qual seria, ent\u00e3o, na sua opini\u00e3o, o maior desafio do ensino escolar hoje no mundo? Fazer esse equil\u00edbrio sociedade tecnol\u00f3gica e humana, o equil\u00edbrio entre o dinheiro e o saber, entre o humanismo e a individualidade?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong><\/em> <em>Antes de mais nada, \u00e9 n\u00e3o se deixar contaminar pela l\u00f3gica da empresa. Uma universidade n\u00e3o \u00e9 uma empresa, \u00e9 como um hospital, n\u00e3o \u00e9 uma empresa.<\/em><\/p>\n<p><em>A l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 a do lucro, n\u00e3o \u00e9 a dos benef\u00edcios, n\u00e3o \u00e9 a do equil\u00edbrio or\u00e7ament\u00e1rio, \u00e9 outra l\u00f3gica. Depois, n\u00e3o obedecer ao dogma da avalia\u00e7\u00e3o. Avaliamos e avaliamos, quando, na realidade, a avalia\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um jeito de calcular que ignora a complexidade das realidades humanas.<\/em><\/p>\n<p><em>O objetivo do ensino deve ser ensinar a viver. Viver n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 se adaptar ao mundo moderno. Viver quer dizer como, efetivamente, n\u00e3o somente tratar as grandes quest\u00f5es de que falamos, mas como viver na nossa civiliza\u00e7\u00e3o, como viver na sociedade de consumo.<\/em><\/p>\n<p><em>Produzimos coisas descart\u00e1veis em vez de objetos repar\u00e1veis, que possam ser consertados. Ent\u00e3o h\u00e1 toda uma l\u00f3gica e \u00e9 preciso dar, no ensino, os meios \u00e0queles que v\u00e3o se tornar adultos, de poder escolher alimentos, consumo, n\u00e3o usar o que n\u00e3o \u00e9 bom e favorecer o que tem qualidade e o que \u00e9 artesanal.<\/em><\/p>\n<p>Acho que \u00e9 preciso ensinar n\u00e3o s\u00f3 a utilizar a internet, mas a conhecer o mundo da internet. \u00c9 preciso ensinar a saber como \u00e9 selecionada a informa\u00e7\u00e3o na m\u00eddia, pois a informa\u00e7\u00e3o sempre passa por uma sele\u00e7\u00e3o \u2013 como e por qu\u00ea? \u00c9 preciso ensinar, h\u00e1 todo um ensinamento, para nossa civiliza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e1 pronto. Tem isso e ainda o ensino dos problemas fundamentais e globais. Essa \u00e9 a reforma fundamental que precisa ser feita.<\/p>\n<div class=\"td-g-rec td-g-rec-id-custom_ad_3 \"><\/div>\n<p><strong>Para terminar, professor, o que \u00e9 que alimenta suas esperan\u00e7as num mundo melhor?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Edgar Morin:<\/strong><\/em> <em>A esperan\u00e7a \u00e9 a ideia que o futuro j\u00e1 que \u00e9 incerto e j\u00e1 que \u00e9 desconhecido, pode justamente ser melhor e, no fundo, meu sentimento profundo \u00e9 que eu sou um pedacinho tempor\u00e1rio, numa gigantesca aventura, que \u00e9 a da humanidade, que come\u00e7ou, talvez, h\u00e1 sete milh\u00f5es de anos, quando um primata virou b\u00edpede. Que continuou e seguiu pela pr\u00e9-hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria, o fim dos imp\u00e9rios, os acontecimentos, as guerras mundiais. Uma aventura absolutamente incr\u00edvel. E como o passado \u00e9 incr\u00edvel, eu sei que o futuro tamb\u00e9m ser\u00e1 incr\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, sinto que fa\u00e7o parte dessa totalidade, querendo ou n\u00e3o. Isso tamb\u00e9m me leva para frente. N\u00e3o renuncio. Sem querer, sou animado por esse sentimento de estar na aventura e quero tamb\u00e9m dar, mesmo que seja pequena, minha contribui\u00e7\u00e3o a isso. \u00c9 isso que tamb\u00e9m me encoraja. N\u00e3o tenho s\u00f3 esperan\u00e7a, tampouco desespero. Mesmo que saiba que a vida \u00e9, ao mesmo tempo, magn\u00edfica e tr\u00e1gica.<\/em><\/p>\n<p><em>Uma das minhas m\u00e1ximas favoritas \u00e9: \u201co que n\u00e3o se regenera, degenera.\u201d Nada est\u00e1 estabelecido para sempre. Se voc\u00ea tem a democracia, n\u00e3o \u00e9 para sempre, pode degenerar. Se acabou com a tortura, n\u00e3o \u00e9 para sempre, pode voltar. Quer dizer, \u00e9 preciso estar com as for\u00e7as da regenera\u00e7\u00e3o e sentir a necessidade dessas for\u00e7as de regenera\u00e7\u00e3o me tonifica, me faz bem e espero fazer o bem tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>fonte:<a href=\"https:\/\/www.pensarcontemporaneo.com\/edgar-morin-e-preciso-ensinar-a-compreensao-humana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> pensador contempor\u00e2neo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria originalmente publicada em Fronteira do Pensamento Nos acostumamos a acreditar que pensamento e pr\u00e1tica s\u00e3o compartimentos distintos da vida. Quem pensa o mundo n\u00e3o faz o mundo e vice-versa. Mas, houve um tempo em que os s\u00e1bios, eventualmente chamados de cientistas ou artistas, circulavam por diversos campos da cultura. Matem\u00e1tica, f\u00edsica, arquitetura, pintura, escultura [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4462,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[41,42,43,44,16,45,46],"class_list":["post-12569","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blogmundomaker","tag-compreensao","tag-compreensao-humana","tag-edgar","tag-edgar-morin","tag-educacao","tag-humana","tag-morin"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12569"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12569\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}