{"id":12526,"date":"2017-05-12T19:00:15","date_gmt":"2017-05-12T22:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pontoinfinito.com.br\/MundoMaker\/?p=995"},"modified":"2017-05-12T19:00:15","modified_gmt":"2017-05-12T22:00:15","slug":"a-cola-deveria-ser-obrigatria-diz-educadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/a-cola-deveria-ser-obrigatria-diz-educadora\/","title":{"rendered":"\u201cA cola deveria ser obrigat\u00f3ria\u201d, diz educadora"},"content":{"rendered":"<p>Dos seus 83 anos de idade, 60 foram dedicados ao magist\u00e9rio e mais de 20 ao estudo da inform\u00e1tica na educa\u00e7\u00e3o. L\u00e9a Fagundes, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defende um modelo de inclus\u00e3o digital nas escolas em que o aluno seja protagonista do aprendizado. Em entrevista concedida ao site Terra, ela fala sobre as mudan\u00e7as radicais que devem acontecer para melhorar o ensino.<\/p>\n<p><strong>Em que n\u00edvel o Brasil est\u00e1 no que diz respeito \u00e0 inclus\u00e3o digital e ao uso de ferramentas computacionais em sala de aula?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um continente, ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 para avaliar o pa\u00eds como um todo. No Amap\u00e1, \u00e9 uma realidade, em Curitiba \u00e9 outra. Mas, apesar de todas as diferen\u00e7as, n\u00f3s temos uma unidade cultural, falamos a mesma l\u00edngua, e os programas dos curr\u00edculos s\u00e3o semelhantes. Os NTEs (N\u00facleos de Tecnologia Educacional) e a forma\u00e7\u00e3o dos professores que veio junto com eles avan\u00e7aram muito o Brasil nessa \u00e1rea. Chegou um momento em que a gente teve que criar cada vez mais n\u00facleos e, com eles, mais laborat\u00f3rios de inform\u00e1tica. Acontece que n\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos mais laborat\u00f3rios, porque isso n\u00e3o resolve a quest\u00e3o da inclus\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Por que os laborat\u00f3rios n\u00e3o s\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>No mundo, e aqui no Brasil inclusive, quando come\u00e7ou a se falar em inclus\u00e3o digital nas escolas foram instalados laborat\u00f3rios. Por qu\u00ea? Porque os computadores eram muito caros, ent\u00e3o n\u00e3o podia ter fartura, n\u00e3o era poss\u00edvel um por aluno, e laborat\u00f3rios eram mais vi\u00e1veis. Mas qual o problema deles?\u00a0 Na maior parte das vezes, s\u00e3o formados t\u00e9cnicos para trabalhar no local, mas o professor de sala de aula n\u00e3o vai ao laborat\u00f3rio e n\u00e3o se especializa. Ent\u00e3o os alunos v\u00e3o ao laborat\u00f3rio, depois voltam e o docente manda que eles se sentem um atr\u00e1s do outro e abram o caderno, n\u00e3o h\u00e1 integra\u00e7\u00e3o entre os momentos. Por isso nos encantamos com a ideia do OLPC (One Laptop Per Child), projeto de computador educacional iniciado no Massachusetts Institute of Technology.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as principais diferen\u00e7as da inclus\u00e3o digital nas escolas no Brasil em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses? <\/strong><\/p>\n<p>A principal diferen\u00e7a entre n\u00f3s e pa\u00edses da Am\u00e9rica do Norte e da Europa \u00e9 que adotamos um programa em que as crian\u00e7as podem programar o computador, e n\u00e3o serem ensinadas por ele. N\u00f3s defendemos a linguagem Logo (criada por Seymour Papert, um dos idealizadores do OLPC) para a inform\u00e1tica na educa\u00e7\u00e3o. Na maior parte do mundo, s\u00e3o colocados computadores e um sistema para ensinar a crian\u00e7a, como se fosse o conte\u00fado passado por um professor para o aluno. Esse \u00e9 outro paradigma, \u00e9 uma mudan\u00e7a completa na escola. O estudante passa a ser investigador e a programar o computador. Agora tu me perguntas: o Brasil est\u00e1 melhor nessa \u00e1rea? Sim. Mais do que todos os pa\u00edses? N\u00e3o. Mas, por exemplo, na Fran\u00e7a, formaram mil professores, e o computador era barato porque era nacional. Mas esse modelo tamb\u00e9m era tradicional, de professor que tem que saber mais que aluno. Para mim, n\u00e3o \u00e9 assim, vejo o aluno como um pesquisador, e o professor, um orientador.<\/p>\n<p><strong>Como deve ocorrer essa mudan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aprender a mexer no equipamento, nem aprender conte\u00fado de sala de aula no computador, \u00e9 o aluno programando, pesquisando, isso exige um curr\u00edculo totalmente novo. O curr\u00edculo, que a gente luta para transformar, tem de ser interdisciplinar e n\u00e3o precisa ser sequencial. Por exemplo, quando o aluno chega para o professor e diz que tem curiosidade de aprender determinado tema, e o professor responde que n\u00e3o pode, porque o conte\u00fado \u00e9 do pr\u00f3ximo ano, isso prejudica o aprendizado. O aluno tem que ter curiosidade no que \u00e9 ensinado, por isso o problema apresentado tem de ser instigante, interessante. Os alunos surpreendem a gente.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os entraves enfrentados na inclus\u00e3o da tecnologia no ambiente escolar?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s temos bons programas nacionais de educa\u00e7\u00e3o e inform\u00e1tica, e nos \u00faltimos 30 anos tivemos muitos projetos de vis\u00e3o nacional. O problema \u00e9 que, quando mudam os governos, os projetos sofrem muito, porque as pessoas que entram na nova gest\u00e3o n\u00e3o t\u00eam conhecimento suficiente ou n\u00e3o querem prestigiar o partido que antecedeu, ent\u00e3o temos tido dificuldade com a continuidade. Por outro lado, o Brasil tem uma hist\u00f3ria, e ela, apesar de interrup\u00e7\u00f5es, n\u00e3o estacionou, est\u00e1 avan\u00e7ando. E eu acredito que futuros professores v\u00e3o mudar esse cen\u00e1rio, pois s\u00e3o pessoas novas que gostam de tecnologia e n\u00e3o t\u00eam medo.<\/p>\n<p><strong>A senhora percebe resist\u00eancia de educadores ou das pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tecnologias? H\u00e1 medo de romper hierarquias?<\/strong><\/p>\n<p>Hierarquia \u00e9 a palavra-chave. Na escola, as crian\u00e7as s\u00e3o tratadas quase ditatorialmente. Sentam-se em fila e, caso se virem, t\u00eam que justificar. Os professores dizem \u201cn\u00e3o olha para o lado, n\u00e3o cola do colega\u201d. A cola deveria ser obrigat\u00f3ria. Cola \u00e9 coopera\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma crian\u00e7a colocando a d\u00favida, e outras tentando ajudar. Voc\u00ea tem avalia\u00e7\u00f5es em que uma s\u00f3 resposta \u00e9 certa, e todos os alunos t\u00eam que dizer a mesma coisa. O problema n\u00e3o \u00e9 ter apenas uma resposta certa, mas os estudantes t\u00eam que testar essas respostas e ver qual resolve melhor o problema. Mas o pior s\u00e3o os cursos de licenciatura, que formam professores, mas n\u00e3o se atualizam.<\/p>\n<p><strong>A mudan\u00e7a desse paradigma deve come\u00e7ar na universidade?<\/strong><\/p>\n<p>Parece que isso \u00e9 ilus\u00e3o, sonho. Os professores que ensinam nas universidades s\u00e3o doutores, famosos, escrevem teses cient\u00edficas e livros. Eles n\u00e3o querem dar o bra\u00e7o a torcer e dizer \u201cn\u00f3s temos que aprender de novo\u201d. Ent\u00e3o o computador n\u00e3o entra nas licenciaturas, que \u00e9 onde deve estar. As melhores licenciaturas s\u00e3o aquelas em que os cursos abra\u00e7am a tecnologia. Ser professor \u00e9 um encantamento, e \u00e9 um encantamento tamb\u00e9m em poder se atualizar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos seus 83 anos de idade, 60 foram dedicados ao magist\u00e9rio e mais de 20 ao estudo da inform\u00e1tica na educa\u00e7\u00e3o. L\u00e9a Fagundes, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defende um modelo de inclus\u00e3o digital nas escolas em que o aluno seja protagonista do aprendizado. 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