{"id":12517,"date":"2017-03-03T18:49:31","date_gmt":"2017-03-03T21:49:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pontoinfinito.com.br\/MundoMaker\/?p=977"},"modified":"2017-03-03T18:49:31","modified_gmt":"2017-03-03T21:49:31","slug":"preciso-simplificar-a-infncia-diz-catherine-lecuyer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/preciso-simplificar-a-infncia-diz-catherine-lecuyer\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 preciso simplificar a inf\u00e2ncia\u201d, diz Catherine L&#8217;Ecuyer"},"content":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as precisam viver uma inf\u00e2ncia completa, em um ritmo adequado, com brinquedos que desenvolvam a imagina\u00e7\u00e3o e pais participativos e sens\u00edveis. \u00c9 o que prega Catherine L&#8217;Ecuyer, autora do livro &#8220;Educar na curiosidade&#8221;. Na obra, Catherine fala sobre a import\u00e2ncia de simplificarmos a inf\u00e2ncia e como o excesso de est\u00edmulos durante essa fase pode ter um impacto negativo na idade adulta. Confira a entrevista concedida ao site portugu\u00eas Observador:<\/p>\n<p><strong>No livro voc\u00ea diz que algumas crian\u00e7as recebem tantos est\u00edmulos (televis\u00e3o, tablet, smartphone&#8230;) que chegam a ficar ap\u00e1ticas. Essa \u00e9 uma realidade recorrente? <\/strong><\/p>\n<p>Acredito que seja uma tend\u00eancia. A crian\u00e7a j\u00e1 nasce curiosa, com o desejo de conhecer as coisas e com uma capacidade de se maravilhar com uma quantidade m\u00ednima de est\u00edmulos, portanto n\u00e3o \u00e9 preciso estimul\u00e1-la em excesso. Quando damos muitos est\u00edmulos \u00e0 crian\u00e7a, ela passa a depender de uma fonte externa e deixa de querer conhecer o mundo por si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><strong>As novas gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mais afetadas?<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu era crian\u00e7a as coisas eram mais lentas. Agora, o ambiente \u00e9 mais fren\u00e9tico, h\u00e1 mais estresse, consumismo e tecnologia. Al\u00e9m disso, os dois pais trabalham e t\u00eam menos tempo. Mas depende do ambiente em que a crian\u00e7a vive. H\u00e1 fam\u00edlias que t\u00eam um ambiente com menos est\u00edmulos, mais tranquilo e que respeita o ritmo da crian\u00e7a. Cada caso \u00e9 um caso. O livro adverte para uma situa\u00e7\u00e3o geral, mas cada fam\u00edlia deve ver o que pode fazer para reduzir o ritmo e filtrar o estresse. Se os pais n\u00e3o filtram o estresse, a crian\u00e7a acaba vivendo como um pequeno executivo estressado.<\/p>\n<p><strong>Quais os riscos que uma crian\u00e7a sofre ao ser exposta em excesso a esses est\u00edmulos?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiramente, a perda da curiosidade, que leva \u00e0 dificuldade na aprendizagem. A curiosidade \u00e9 o desejo de conhecer e, quando uma crian\u00e7a perde esse desejo, nada mais tem gra\u00e7a. A crian\u00e7a j\u00e1 viu tudo, j\u00e1 fez tudo, nada a surpreende e nada desperta o interesse. Quando adiantamos etapas fazemos com que a crian\u00e7a fa\u00e7a e veja tudo antes do tempo e, muitas vezes, ela n\u00e3o est\u00e1 preparada para assimilar essa informa\u00e7\u00e3o. Para se desenvolver normalmente, a crian\u00e7a precisa ter seu ritmo respeitado. Quando damos \u00e0 crian\u00e7a ritmos muito r\u00e1pidos ela fica saturada de informa\u00e7\u00e3o e a consequ\u00eancia \u00e9 a impulsividade. Maria Montessori chamava isso de \u201cgrito da natureza\u201d, que \u00e9 quando uma crian\u00e7a reclama sobre algo que a sua natureza reclama. \u00c0s vezes, esses gritos s\u00e3o entendidos pelos pais como m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o, capricho ou rebeldia. O trabalho dos pais consiste em discernir o que \u00e9 capricho e o que \u00e9 grito da natureza. \u00c9 preciso conhecer a crian\u00e7a e as circunst\u00e2ncias, bem como acreditar no instinto maternal e paternal. Cada pai deve tentar perceber o que a crian\u00e7a precisa e porque est\u00e1 se queixando.<\/p>\n<p><strong>Nesse sentido, qual \u00e9 a import\u00e2ncia do v\u00ednculo afetivo entre a crian\u00e7a e seu cuidador?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental. Na psicologia, uma das teorias mais aceitas e sobre a qual se baseiam muitos programas educativos \u00e9 a teoria do apego. A teoria diz que as crian\u00e7as precisam criar uma v\u00ednculo de confian\u00e7a com o seu principal cuidador para se sentirem seguras e terem autoestima elevada. As crian\u00e7as ficam com a autoestima elevada porque se sentem queridas pelos pais e se sentem seguras porque aprendem a confiar nas pessoas. As crian\u00e7as com apego seguro descobrem mais, s\u00e3o mais curiosas, s\u00e3o mais esperan\u00e7osas e v\u00e3o mais longe para descobrir. Aquelas com apego inseguro s\u00e3o mais retra\u00eddas, t\u00eam medo de ir mais longe e desconfiam muito \u2013 e isso tem impacto nas rela\u00e7\u00f5es futuras. O v\u00ednculo de apego se estabelece nos dois primeiros anos e nos acompanha durante toda a vida. Mas como se estabelece esse v\u00ednculo? Usando nossa sensibilidade para entender as necessidades da crian\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que as crian\u00e7as est\u00e3o crescendo r\u00e1pido demais ao serem expostas a coisas que n\u00e3o correspondem \u00e0 idade delas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Chamo isso de \u201credu\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia\u201d. A consequ\u00eancia dessa redu\u00e7\u00e3o \u00e9 o alargamento da adolesc\u00eancia. A inf\u00e2ncia deve ser vivida no tempo certo e, caso isso n\u00e3o aconte\u00e7a, as pessoas ter\u00e3o de viv\u00ea-la depois e faltar\u00e1 maturidade na fase adulta. Cada vez mais as crian\u00e7as se comportam como pequenos adultos e os adultos se comportam como crian\u00e7as. A inf\u00e2ncia \u00e9 a idade dos jogos, da imagina\u00e7\u00e3o, uma idade em que se aprende muito. \u00c9 muito importante viv\u00ea-la no momento certo.<\/p>\n<p><strong>No livro voc\u00ea diz que a brincadeira \u00e9 a mais velha cultura do mundo. O que acontece com uma crian\u00e7a que n\u00e3o brinca o suficiente?<\/strong><\/p>\n<p>A crian\u00e7a que n\u00e3o brinca \u00e9 a crian\u00e7a passiva, que est\u00e1 \u00e0 espera que o brinquedo aja. Mas n\u00e3o \u00e9 o brinquedo que tem de agir, \u00e9 a crian\u00e7a que tem de faz\u00ea-lo por meio do brinquedo. Os brinquedos com menos pilhas e bot\u00f5es s\u00e3o melhores. H\u00e1 dois tipos de brinquedos: os que permitem que a crian\u00e7a seja protagonista, aja, brinque e proporcionam seu desenvolvimento; e os que fornecem conte\u00fados r\u00e1pidos e n\u00e3o respeitam o ritmo interior da crian\u00e7a. Esses \u00faltimos s\u00e3o nocivos e geram o excesso de est\u00edmulos e a perda da curiosidade j\u00e1 citados.<\/p>\n<p><strong>Os pais t\u00eam no\u00e7\u00e3o do perigo desses brinquedos nocivos?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que tudo o que os pais fazem \u00e9 pensando que \u00e9 bom para seus filhos. \u00c9 muito importante que tomemos as decis\u00f5es do que entra no nosso espa\u00e7o porque n\u00e3o podemos abdicar do nosso papel como primeiro educador. Ou seja, temos que decidir quais brinquedos devem ou n\u00e3o entrar em casa. Para ter a informa\u00e7\u00e3o do que conv\u00e9m e do que n\u00e3o conv\u00e9m, \u00e9 preciso saber o que dizem os estudos. \u00c9 por isso que no livro utilizo muitas refer\u00eancias a estudos acad\u00eamicos de neuropediatria, porque penso que s\u00e3o dados relevantes que ajudam os pais a tomarem essas decis\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sente que os pais andam muito indecisos e inseguros?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que existem muitos livros no mercado sobre conselhos \u2014 o que se deve fazer e o que n\u00e3o se deve fazer para que uma crian\u00e7a seja inteligente, para que coma, obede\u00e7a e durma. Acho que a ind\u00fastria dos conselhos empacotados fez muitos danos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o porque acabou com o instinto maternal e paternal e menosprezou a sensibilidade que o pai tem de saber o que seu filho precisa. Quem sabe o que fazer quando uma crian\u00e7a chora n\u00e3o \u00e9 um autor que n\u00e3o conhece os filhos, somos n\u00f3s. Temos de nos conectar outra vez com essa sensibilidade e, para isso, temos de passar tempo com nossos filhos.<\/p>\n<p><strong>Por que os pais t\u00eam recorrido tanto a essa ind\u00fastria dos conselhos?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que essa ind\u00fastria come\u00e7ou por tr\u00eas motivos. O primeiro \u00e9 porque os pais t\u00eam menos tempo para estar com os seus filhos e \u00e9 junto dos filhos que v\u00e3o encontrar as respostas certas, ao observ\u00e1-los e estando com eles. O segundo motivo \u00e9 porque estamos em um mundo cada vez mais complicado, mais r\u00e1pido e mais acelerado. H\u00e1 muitos agentes que interferem na educa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o controlamos e que dever\u00edamos controlar. O terceiro motivo \u00e9 porque nos deixamos enganar e acabamos por acreditar em uma s\u00e9rie de coisas que n\u00e3o est\u00e3o corretas, que s\u00e3o os \u201cneuromitos\u201d. Os \u201cneuromitos\u201d s\u00e3o interpreta\u00e7\u00f5es mal feitas da literatura da neuroci\u00eancia. Um \u201cneuromito\u201d \u00e9 achar que as crian\u00e7as s\u00f3 utilizam 10% do seu c\u00e9rebro ou que t\u00eam uma intelig\u00eancia limitada e que \u00e9 preciso estimul\u00e1-las. Outro? Durante os tr\u00eas primeiros anos \u00e9 preciso manter a crian\u00e7a em um ambiente enriquecido, caso contr\u00e1rio ela n\u00e3o se vai desenvolver. Nada disso \u00e9 verdade. S\u00e3o interpreta\u00e7\u00f5es mal feitas da neuroci\u00eancia aplicada no \u00e2mbito educativo. A ind\u00fastria do conselho empacotado geralmente come\u00e7a com esses \u201cneuromitos\u201d. Se eu disser \u201co seu filho tem um potencial ilimitado e tem tr\u00eas anos para aprender ingl\u00eas, chin\u00eas e mandarim, violoncelo e ballet\u201d, ent\u00e3o vamos pensar que \u00e9 preciso que ele fa\u00e7a tudo isso r\u00e1pido, que \u00e9 preciso adiantar as etapas. Resultado? Os pais ficam estressados. \u00c9 preciso simplificar a inf\u00e2ncia e a paternidade. N\u00e3o existem pais perfeitos, existem pessoas que gostam muito dos seus filhos e que t\u00eam um instinto e uma sensibilidade para perceber o que eles precisam.<\/p>\n<p><strong>Por que voc\u00ea diz em seu livro que os pais est\u00e3o cada vez mais \u201centertainers\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Porque os pais n\u00e3o conseguem competir com um tablet ou com uma televis\u00e3o e, para tentar competir, come\u00e7am a organizar atividades e passam todos os fins de semana fazendo todos os passeios poss\u00edveis. Eles viram meros entertainers. Brincar, que \u00e9 ativo, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que entreter, que \u00e9 passivo. Na brincadeira, a motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 interna e a crian\u00e7a atua a partir de dentro. Na divers\u00e3o, a motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 externa e n\u00e3o gera curiosidade. No primeiro caso a crian\u00e7a presta aten\u00e7\u00e3o, no segundo est\u00e1 desatenta.<\/p>\n<p><strong>Acha que as crian\u00e7as s\u00e3o menos felizes agora do que eram no passado?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se podemos afirmar isso. Uma crian\u00e7a \u00e9 filha do seu tempo, ela n\u00e3o sabe distinguir o antes do agora. O que temos de perguntar \u00e9 se, al\u00e9m de sermos filhos do nosso tempo, somos escravos do nosso tempo. Se n\u00e3o somos, ent\u00e3o temos de rejeitar tudo aquilo que n\u00e3o respeita a natureza das crian\u00e7as, as etapas da inf\u00e2ncia, a necessidade de sil\u00eancio, o mist\u00e9rio e a beleza. Acho que tamb\u00e9m \u00e9 importante n\u00e3o cair na nostalgia de pensar que antes era melhor e que agora \u00e9 tudo um desastre. \u00c9 poss\u00edvel ser curioso em 2017, como sempre foi e sempre ser\u00e1.<\/p>\n<p><strong>No livro voc\u00ea fala dos educadores mecanicistas, aqueles que querem crian\u00e7as \u201c\u00e0 la carte\u201d. O que isso significa?<\/strong><\/p>\n<p>Um educador mecanicista \u00e9 uma pessoa que pensa que a crian\u00e7a pode ser \u00e0 la carte, que \u00e9 como uma folha em branco sobre a qual escrevemos o que queremos. Crian\u00e7as assim s\u00e3o cubos vazios, programadas por n\u00f3s como se fossem uma aplica\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica. Sabemos que n\u00e3o \u00e9 assim que deve ser porque as crian\u00e7as t\u00eam o desejo de se conhecer internamente e de se mover sozinhas.<\/p>\n<p><strong>Ainda criamos crian\u00e7as \u00e0 la carte?<\/strong><\/p>\n<p>Penso que essa realidade sempre existiu, mas n\u00e3o podemos generalizar e dizer que todos fazem isso. \u00c9 preciso ver caso a caso. No livro denuncio essa tend\u00eancia. O estilo de educa\u00e7\u00e3o mecanicista de educar consiste em tr\u00eas pontos: memoriza\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, repeti\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica e autoridade como a \u00fanica fonte de conhecimento \u2014 \u201c\u00e9 assim porque eu digo que sim\u201d. \u00c9 um estilo educativo que n\u00e3o responde \u00e0 verdade das pessoas.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que se educa uma crian\u00e7a sem interferir em sua curiosidade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se pode aprender no caos, portanto \u00e9 preciso que existam regras. Defendo que a crian\u00e7a deve descobrir o mundo no seu ritmo, mas isso n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com regras. O importante \u00e9 que a crian\u00e7a deseje aprender e n\u00e3o que fa\u00e7a o que quer. \u00c9 muito importante ter um ambiente preparado porque o mundo real tem limites.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as precisam viver uma inf\u00e2ncia completa, em um ritmo adequado, com brinquedos que desenvolvam a imagina\u00e7\u00e3o e pais participativos e sens\u00edveis. \u00c9 o que prega Catherine L&#8217;Ecuyer, autora do livro &#8220;Educar na curiosidade&#8221;. 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