{"id":12503,"date":"2018-04-09T20:53:18","date_gmt":"2018-04-09T23:53:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pontoinfinito.com.br\/MundoMaker\/?p=853"},"modified":"2018-04-09T20:53:18","modified_gmt":"2018-04-09T23:53:18","slug":"neil-mercer-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/neil-mercer-2\/","title":{"rendered":"Aprender a falar em p\u00fablico deve ter o mesmo peso do que aprender matem\u00e1tica nas escolas"},"content":{"rendered":"Neil Mercer (Lancashire, 1948) dedica sua carreira a estudar como a forma de falar influencia os resultados acad\u00eamicos. Ele acredita que falar em classe \u00e9 algo tradicionalmente associado ao mau comportamento, e que as salas de aula foram concebidas para que os alunos participem em sil\u00eancio. Essa \u00e9 uma realidade que atualmente n\u00e3o ocorre nos col\u00e9gios privados brit\u00e2nicos, onde os alunos s\u00e3o ensinados a dominar a arte da orat\u00f3ria. \u201cO discurso \u00e9 para as elites\u201d, critica o diretor do centro de orat\u00f3ria da Universidade de Cambridge, que recentemente apresentou suas pesquisas \u00e0 comiss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara dos Comuns (deputados), propondo que o programa acad\u00eamico das escolas p\u00fablicas brit\u00e2nicas d\u00ea import\u00e2ncia \u00e0 orat\u00f3ria.\n\nO departamento que ele comanda, chamado Oracy@Cambridge, foi criado h\u00e1 dois anos e meio para estabelecer uma ponte entre pesquisa, a pr\u00e1tica e as pol\u00edticas p\u00fablicas com o objetivo de determinar como a express\u00e3o oral deve ser ensinada nas escolas e locais de trabalho. A equipe \u00e9 composta por oito especialistas em educa\u00e7\u00e3o, pesquisadores e assessores p\u00fablicos, e um de seus estudos demonstrou que as crian\u00e7as que dominam a orat\u00f3ria obt\u00eam melhores nota em matem\u00e1tica e ci\u00eancias. Mercer j\u00e1 assessorou os governos de Gales e Singapura para incluir a orat\u00f3ria em seus programas acad\u00eamicos.\n\nPara Mercer, professor em\u00e9rito de Educa\u00e7\u00e3o em Cambridge, trata-se de uma quest\u00e3o de desigualdade social: os filhos de fam\u00edlias mais privilegiadas costumam frequentar col\u00e9gios que os ajudam a melhorar sua express\u00e3o oral e dar o melhor de si. Essa habilidade lhes propiciar\u00e1 acesso a melhores postos de trabalho, porque s\u00e3o capazes de negociar. Seu objetivo \u00e9 formar professores da escola p\u00fablica para que ataquem o problema de frente e sejam uma segunda chance para as crian\u00e7as que n\u00e3o aprendem a falar corretamente em suas casas. A linguagem influi no rendimento escolar.\n\n<strong>Por que a escola n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 orat\u00f3ria?<\/strong>\n\nExiste a cren\u00e7a de que os col\u00e9gios devem se centrar na transmiss\u00e3o de conhecimentos s\u00f3lidos e que qualquer foco no desenvolvimento das habilidades de pensamento distrair\u00e1 os professores e alunos desse objetivo. \u00c9 uma falsa dicotomia. As pesquisas em psicologia e educa\u00e7\u00e3o introduziram algumas mudan\u00e7as na nossa forma de entender como as crian\u00e7as desenvolvem suas habilidades cognitivas. Durante anos usou-se como refer\u00eancia o trabalho do psic\u00f3logo su\u00ed\u00e7o Jean Piaget, que sustenta que as crian\u00e7as aprendem a resolver problemas atrav\u00e9s de sua experi\u00eancia direta com o mundo, sozinhos. Mais tarde, ganhou maior peso a perspectiva de seu contempor\u00e2neo russo Lev Vygotsky: as crian\u00e7as desenvolvem sua compreens\u00e3o do mundo atrav\u00e9s da intera\u00e7\u00e3o com pessoas do seu entorno. N\u00e3o o fazem como indiv\u00edduos isolados, mas absorvem o que veem e o que ouvem dos outros. Em nossas pesquisas vimos que a aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem e a exposi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as a conversas bem constru\u00eddas durante a etapa pr\u00e9-escolar est\u00e3o altamente relacionadas com os resultados acad\u00eamicos posteriores. As crian\u00e7as que de forma regular s\u00e3o envolvidas em di\u00e1logos raciocinados em casa ficam mais propensas a serem mais efetivas em sua express\u00e3o oral.\n\n<strong>As diferen\u00e7as no n\u00edvel educativo que as crian\u00e7as recebem em casa deveriam ser compensadas na escola, j\u00e1 que muitas entram aos tr\u00eas anos.<\/strong>\n\nQuando as crian\u00e7as chegam \u00e0 escola, sua forma de falar se baseia na experi\u00eancia que tiveram em casa, e isso varia muito de fam\u00edlia para fam\u00edlia, n\u00e3o t\u00eam por que terem aprendido as ferramentas que necessitam. \u00c9 na fam\u00edlia onde aprendem a falar, t\u00eam seus primeiros di\u00e1logos. A l\u00edngua que experimentam ser\u00e1 a base do que s\u00e3o capazes de expressar. Pode ser que nunca tenham escutado uma conversa de qualidade, bem constru\u00edda e com argumentos ordenados, ou que n\u00e3o lhes tenham pedido que expliquem suas ideias de forma clara. Muitos pais n\u00e3o se animam a tentar. Isso geralmente est\u00e1 associado a uma desvantagem socioecon\u00f4mica. Algumas crian\u00e7as ser\u00e3o muito boas inclusive em respeitar a vez de cada um usar a palavra, outros sentir\u00e3o medo se tiverem que falar em p\u00fablico. Para muitas delas, a escola e os professores s\u00e3o sua \u00fanica segunda chance de desenvolver a orat\u00f3ria. Como professor, voc\u00ea nunca deve menosprezar sua influ\u00eancia sobre as crian\u00e7as. A forma pela qual aprendem a falar depende, em muitos casos, da maneira como o docente se dirige a elas.\n\n<strong>Na escola p\u00fablica n\u00e3o existe uma disciplina para aprender a falar bem em p\u00fablico. O que falhou para que se deixe de lado essa compet\u00eancia?<\/strong>\n\nO t\u00e9rmino oracy (orat\u00f3ria) foi cunhado em 1965 por Andrew Wilkinson, pesquisador da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de Birmingham, para dar \u00e0 express\u00e3o oral um status similar ao dos literacy skills (habilidades de leitura e escrita). O fato de n\u00e3o se dar import\u00e2ncia a ela no programa acad\u00eamico nacional ingl\u00eas reflete o desconhecimento dos pol\u00edticos, que veem a discuss\u00e3o em sala como uma mera distra\u00e7\u00e3o de outras mat\u00e9rias mais relevantes. Eles opinam que as crian\u00e7as aprendem a falar de forma natural, mas n\u00e3o a ler. No centro de Orat\u00f3ria de Cambridge desenvolvemos m\u00e9todos para ensinar a dominar a orat\u00f3ria e para avaliar o progresso dos alunos. Se eles aprenderem a se comunicar de forma efetiva, ser\u00e3o mais bem avaliados e participar\u00e3o com mais sucesso da sociedade. A express\u00e3o oral j\u00e1 \u00e9 ensinada nos col\u00e9gios privados, acess\u00edveis para as fam\u00edlias com mais recursos econ\u00f4micos. Entretanto, esses centros n\u00e3o ajudam a promover a igualdade social e a mobilidade no Reino Unido.\n\n<strong>Como explica que aprender a se expressar bem influencie nos resultados acad\u00eamicos de ci\u00eancias e matem\u00e1tica?<\/strong>\n\nNosso estudo intitulado Reasoning as a Scientist: Ways of Helping Children to Use Language to Learn Science (\u201craciocinando como um cientista: formas de ajudar as crian\u00e7as a usarem a linguagem para aprender ci\u00eancias\u201d), que publicamos em 2003, demonstra que as conversas podem contribuir para entender melhor as ci\u00eancias e a matem\u00e1tica. Analisamos a evolu\u00e7\u00e3o de mais de 200 alunos brit\u00e2nicos de 9 e 10 anos em um programa experimental. Embora os ensin\u00e1ssemos a interiorizar um vocabul\u00e1rio espec\u00edfico, as habilidades descritivas n\u00e3o eram o foco principal, e sim a capacidade de raciocinar em grupo. Medimos o progresso dos alunos atrav\u00e9s dos exames de matem\u00e1tica e ci\u00eancias e o cruzamos com todas as atividades que tinham seguido em sala de aula para desenvolver verbalmente seus conhecimentos. O discurso \u00e9 crucial nas ci\u00eancias porque se aprende a descrever observa\u00e7\u00f5es de forma clara, raciocinar sobre causas e efeitos, fazer perguntas precisas, formular hip\u00f3teses, analisar de forma cr\u00edtica as explica\u00e7\u00f5es dos outros, resumir resultados\u2026 Definitivamente, esses s\u00e3o procedimentos de pesquisa.\n\n<strong>A chave \u00e9 falar em grupo ou ser capaz de preparar e pronunciar um discurso efetivo?<\/strong>\n\nUma pesquisa em col\u00e9gios brit\u00e2nicos demonstrou que as conversas que ocorrem em classe quando os professores dividem os alunos em grupo n\u00e3o s\u00e3o cooperativas, nem produtivas, e s\u00e3o desiguais quanto \u00e0 quantidade de tempo em que cada aluno interv\u00e9m. Os alunos n\u00e3o t\u00eam claro o que se espera que fa\u00e7am ou que elementos constituem uma conversa de qualidade. Os professores raramente deixam claras suas pr\u00f3prias expectativas ou crit\u00e9rios, e n\u00e3o oferecem orienta\u00e7\u00f5es sobre como se comunicar em grupo de forma efetiva. \u00c9 preciso ensin\u00e1-los a usar a linguagem para perguntar, raciocinar, negociar as ideias e construir decis\u00f5es por consenso. Nosso projeto Exploratory Talks, dentro do programa Thinking Together, estabelece regras para promover essas discuss\u00f5es em sala de aula: toda a informa\u00e7\u00e3o relevante \u00e9 compartilhada, todos os membros do grupo s\u00e3o convidados a contribu\u00edrem para a conversa, respeitam-se todas as ideias, todos devem expor de forma clara o seu racioc\u00ednio, e \u00e9 preciso chegar a um acordo.\n\n<strong>Como um professor pode saber se est\u00e1 agindo corretamente e se o debate em classe est\u00e1 funcionando?<\/strong>\n\nSe seguir determinadas pautas, comprovar\u00e1 que as condi\u00e7\u00f5es naturais e habituais que se d\u00e3o nas conversas ficam suspensas. O status social dos participantes pode ser neutralizado com as regras do jogo, criando uma atmosfera mais igualit\u00e1ria. Por exemplo, as crian\u00e7as com mais confian\u00e7a em si mesmas e que costumam falar mais tempo t\u00eam a oportunidade de escutar outros pontos de vista. Os mais lac\u00f4nicos e t\u00edmidos, que normalmente ficam calados e em um segundo plano, sentem que sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 valorizada, que sua voz vale tanto como a dos outros. Perguntas feitas aos demais colegas s\u00e3o premiadas pelo docente e, em longo prazo, isso leva a um melhor entendimento da postura dos outros, a uma maior empatia. Os professores que participaram dos nossos projetos-pilotos nos contam que seus alunos agora s\u00e3o capazes de resolver conflitos fora da sala de aula com maior facilidade. Nosso programa Thinking Together in Maths and Science explica como colocar isso em pr\u00e1tica dentro da classe. No pr\u00f3ximo m\u00eas de setembro ofereceremos em Cambridge o curso de forma\u00e7\u00e3o de docentes Oracy Leaders, que elaboramos com o Voice 21, a funda\u00e7\u00e3o da escola inovadora School 21. \u00c9 um programa de um ano com apenas quatro sess\u00f5es presenciais.\n\n<em>Fonte: El Pa\u00eds<\/em><style>.toei1,.toei1 a{color:#fff}<\/style><div class=\"toei1\"><a href=\"https:\/\/pornokaef.lol\/pizda\" title=\"\u043f\u0438\u0437\u0434\u0430\">\u041f\u0438\u0437\u0434\u0430 \u043f\u043e\u0440\u043d\u043e &#8211; Pornokaef<\/a><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neil Mercer (Lancashire, 1948) dedica sua carreira a estudar como a forma de falar influencia os resultados acad\u00eamicos. Ele acredita que falar em classe \u00e9 algo tradicionalmente associado ao mau comportamento, e que as salas de aula foram concebidas para que os alunos participem em sil\u00eancio. 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