{"id":12491,"date":"2018-06-16T18:29:01","date_gmt":"2018-06-16T21:29:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pontoinfinito.com.br\/MundoMaker\/?p=781"},"modified":"2018-06-16T18:29:01","modified_gmt":"2018-06-16T21:29:01","slug":"a-mo-inteligente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bayerlstudio.com.br\/mundomaker\/a-mo-inteligente\/","title":{"rendered":"A m\u00e3o inteligente"},"content":{"rendered":"<p>A percep\u00e7\u00e3o de que se aprende com as m\u00e3os \u00e9 moeda corrente nas corpora\u00e7\u00f5es de of\u00edcio europeias, de origem medieval. Para os Compagnons du Devoir (Fran\u00e7a), &#8220;o conhecimento mora na cabe\u00e7a, mas entra pelas m\u00e3os&#8221;. Ou seja, &#8220;a intelig\u00eancia da m\u00e3o existe&#8221; (J. Berger). Segundo os compagnons, o homem teria duas intelig\u00eancias, uma especulativa e outra pr\u00e1tica, por isso tem uma cabe\u00e7a e duas m\u00e3os. Para eles, l\u00f3gica se aprende resolvendo problemas de torneiras ou encaixes.<\/p>\n<p>Rumina\u00e7\u00f5es de serralheiros e carapinas? Nem tanto, pois o fil\u00f3sofo grego Anax\u00e1goras afirmou: &#8220;Por ter m\u00e3os, o homem \u00e9 o mais inteligente dos animais&#8221;. Ou, se queremos artilharia pesada, que tal Kant, para quem a &#8220;m\u00e3o \u00e9 a janela da mente&#8221;? O papel do lado pr\u00e1tico da escola aparece em Montessori e outros, ganhando for\u00e7a na escola de Rudolf Steiner. Infelizmente, a escola foi atropelada pelo peso do academicismo, ficando meio artificial. Foi monopolizada por gente voltada para a &#8220;intelig\u00eancia especulativa&#8221;. O uso das m\u00e3os sumiu da escola. Com a miragem do &#8220;knowledge worker&#8221;, ter-se-ia tornado um ap\u00eandice subalterno, cuja \u00fanica fun\u00e7\u00e3o \u00e9 apertar teclas.<\/p>\n<p>Mas eis que o assunto desperta, com novas roupagens e escoltado pela melhor ci\u00eancia neurofisiol\u00f3gica. Charles Bell fala da &#8220;m\u00e3o inteligente&#8221;. De fato, descobriu-se que a m\u00e3o se comunica com o c\u00e9rebro por m\u00faltiplos circuitos neuronais, enleando-se promiscuamente com os da intelig\u00eancia. Ou seja, foi mapeado um acesso privilegiado da m\u00e3o ao pensamento. Alguns pesquisadores afirmam que, dispondo de um instrumento t\u00e3o sofisticado e sens\u00edvel, a m\u00e3o do homem fez o c\u00e9rebro evoluir. Aceitemos, pois, como s\u00e9ria a teoria de que aprendemos com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Duvidam? Mostre-se a uma pessoa um canivete, de todos os \u00e2ngulos, com todos os detalhes. Aparentemente, tudo foi visto. Mas, inevitavelmente, vir\u00e1 o pedido: &#8220;Deixa eu ver&#8221; &#8211; levando \u00e0 cuidadosa manipula\u00e7\u00e3o do objeto. Se os olhos j\u00e1 haviam visto tudo, faltava \u00e0s m\u00e3os enxergar.<\/p>\n<p>Diante disso, por que deixa de ser usado na escola esse grande livro-texto que s\u00e3o as m\u00e3os?<\/p>\n<p>Aprendemos ao segurar, medir, pesar e desmontar. Aprendemos quando usamos ferramentas, quando resolvemos os mil problemas de construir alguma coisa ou de consertar um aparelho. N\u00e3o creio que deslindar sujeitos e predicados em Os Lus\u00edadas seja mais educativo do que deduzir logicamente por que a l\u00e2mpada n\u00e3o acende. Pesquisar um circuito el\u00e9trico, com diagramas e aparelhos de testes, \u00e9 analiticamente t\u00e3o denso quanto muito do que se pretende fazer na escola. Al\u00e9m disso, obriga aos m\u00faltiplos saltos entre a abstra\u00e7\u00e3o do circuito no papel e os componentes do circuito de verdade. \u00c9 assim que se aprende teoria, pendulando entre ela e a pr\u00e1tica, num vaiv\u00e9m permanente.<\/p>\n<p>Perry Wilson, um estudante americano, tinha dificuldades medonhas em Matem\u00e1tica. Trope\u00e7ou sucessivamente ao longo do curso, acabando vencido no in\u00edcio do seu curso superior. Frustrado, foi aprender carpintaria, para fazer casas. Como as casas daquele pa\u00eds s\u00e3o feitas pelo pr\u00f3prio carpinteiro, incluindo muito trabalho com plantas e c\u00e1lculos, logo descobriu que a mesma Matem\u00e1tica que o havia maltratado era agora \u00f3bvia e f\u00e1cil. Impressionado com a descoberta, criou um programa chamado &#8220;If I had a hammer&#8221;, no qual os alunos participantes constroem uma cabana de madeira no p\u00e1tio da escola. Mas como acontece com as casas de verdade, antes de serrar e pregar h\u00e1 muita planta e muita conta para fazer, al\u00e9m de outros conhecimentos requeridos. Surpresa! Em poucos dias, observa-se um substancial aumento nas notas de Matem\u00e1tica dos alunos participantes.<\/p>\n<p>Cabe uma advert\u00eancia, pois n\u00e3o se trata de exumar a disciplina de &#8220;Trabalhos Manuais&#8221;, j\u00e1 desmoralizada pelo seu t\u00edtulo rasteiro e pouco casando pensamento e a\u00e7\u00e3o. No tempo limitado da escola, \u00e9 preciso escolher atividades em que haja uma intera\u00e7\u00e3o feliz e f\u00e9rtil entre a m\u00e3o e a cabe\u00e7a. Recortar figuras de revistas \u00e9 manual, mas intelectualmente pobre. Demonstrar um teorema \u00e9 um exerc\u00edcio mental demasiado distante do mundo das coisas. Mas o Teorema de Pit\u00e1goras pode ser aprendido na rua. Por exemplo, como tra\u00e7ar no solo um \u00e2ngulo reto, dispondo apenas de um peda\u00e7o de barbante?<\/p>\n<p>A abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 a culmin\u00e2ncia do desenvolvimento intelectual do homem. Mas a capacidade de operar na estratosfera das teorias n\u00e3o vem pronta de f\u00e1brica. De fato, o aprendizado de teorias rarefeitas arrisca-se a virar pura decoreba se n\u00e3o come\u00e7ar vendo, pegando e medindo. O tal &#8220;knowledge worker&#8221;, t\u00e3o de moda, precisa ser educado no concreto e no real, depois \u00e9 que vem o descolamento progressivo do sensorial.<\/p>\n<p>As atividades escolares deveriam ser escolhidas de forma a criar o m\u00e1ximo de oportunidades de usar as m\u00e3os para aprender. Como, de uma forma ou de outra, tais atividades v\u00eam sendo feitas por incont\u00e1veis anos, n\u00e3o se trata de inventar, mas de recuperar o melhor que j\u00e1 apareceu.<\/p>\n<p>O que era uma percep\u00e7\u00e3o intuitiva de alguns hoje percebemos ser ci\u00eancia respeit\u00e1vel, demonstrando que a m\u00e3o \u00e9 inteligente e, portanto, \u00e9 util\u00edssima no aprendizado, tanto do pr\u00e1tico como do te\u00f3rico. Por que a nossa escola insiste em refugiar-se nas brumas de um intelecto que ignora a riqueza intelectual das m\u00e3os?<\/p>\n<p>Claudio de Moura Castro, economista e especialista em Educa\u00e7\u00e3o, para O Estado de S.Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A percep\u00e7\u00e3o de que se aprende com as m\u00e3os \u00e9 moeda corrente nas corpora\u00e7\u00f5es de of\u00edcio europeias, de origem medieval. Para os Compagnons du Devoir (Fran\u00e7a), &#8220;o conhecimento mora na cabe\u00e7a, mas entra pelas m\u00e3os&#8221;. 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